lisboa 25 de agosto de 1988 ou A mulher oculta nas viagens de andrei morgado (revisao inversa) "Debruçado à mesa da cela",
Debruçado à mesa da cela, a cabeça oculta entre os braços, envolto por sonhos insepultos travestidos de memória, evocou sem sucesso a imagem de uma mulher. Era uma mesa pequena, feita com madeira de demolição marrom, assim como a cadeira em que estava sentado. A biblia com capa de couro vermelho ja estava ali quando chegou. Está aberta no saltério. Em frente à janela, na pequena encosta gramada, ao lado de um calvário medieval, uma placa de pedra indica a vereda de terra que dá nas vinhas.
Agora voltou o silêncio vespertino da abadia. O passo do homem, lento, ecoa; envolve os pensamentos moldados à arquitetura dos predios. São lembranças cristalizadas a cada revisita; tantas vezes revisitadas, se incorporaram a memória como fatos, embora nem todas o fossem.
Desce agora um pequeno lance de escadas; a lembrança à sua frente ilumina os vitrais. Na margem do Tejo, o vendedor de haxixe abordava os estrangeiros. Acinzentado brilho imperial cobre o casario nas ladeiras ao redor. Tamborilam as águas da fonte nos ladrilhos rangentes à passagem dos bondes. O prédio na esquina do paço ergue-se triste em cicatrizes e olhos, duplicado ao longo da água no meio-fio.
O sino enchia o ar quando ele dobrou o ultimo corredor antes do quarto. Olhar e respiracão encontraram um ritmo comum. Os salmos e os canticos da liturgia entravam pela janela. Ondas apaziguantes, ao se deslocarem, provocam um deleite definitivo. Lembranças lentas se assemelham a um filme cuja velocidade de reprodução estivesse mais e mais reduzida. Veio então o hino das vesperas, quando menos o esperava.
O quarto evoca a antiga cela. A toalhinha de crochê sobre o criado-mudo parece ter sido colocada ali agora. Cheira a ferro, com uma nota extravagante de canela; guarda a dobra feita pela jovem religiosa portuguesa. Andrei a viu, de passagem, quando chegou: Agora, as edificações, os jardins e o cemitério da abadia mergulharam na escuridão.
Aí morreu Andrei, e aí foi enterrado.
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