A Noite Alguns Fragmentos

OS DIAS de inverno quando o sol quase não aquece mas tanto ilumina são dias nos quais os que chegaram ao inverno da vida ainda podem sonhar. Mesmo doentes e que se achem inúteis. Mesmo sempre inoportunos. Ele pensava assim ao voltar do médico, coisa rara. Não pensar. Voltar do médico. Significava que tinha ido. Não do médico: da médica – faz grande diferença. Houve aquele momento em que pediu para ser internado. – Só autorizo internação em último caso. – O que falta para que meu caso chegue lá? – É quando o paciente representa risco para os outros ou para si mesmo. Quando se torna agressivo ou pensa em suicídio. – Ah – disse ele. – Bom saber que não preencho os requisitos. – Graças a Deus. Com um homem parecido ela sonhou na noite anterior. Ombros largos, não troncudo. Cabelos curtos despenteados, penteados com a mão. Camiseta de malha e jeans batido. Uma mochila como essa. Em dias assim se acentua no homem o desejo de uma companheira com quem partilhe essa vontade. Uma mulher que o receba e se tornem uma carne quente e una mas também calem-se juntos na paz posterior que é tudo e as mulheres costumam matar com palavras. – Mas e o que eu contei sobre as noites de angústia em que penso seria melhor nem ter nascido? – Você disse que sempre passa. Podemos tratar isso no ambulatório. Internação só em último caso. O consultório estava imerso em uma luz avermelhada que contrariava a lógica do frio. Ela pisca de um modo teatral e seus olhos não o acompanham quando ele se levanta e caminha até a janela. O prédio antigo lá embaixo no coração nervoso da cidade. Entradas de pinho e escadas de mármore; espelhos de prata e arabescos de gesso. Num lugar assim ele poderia morrer. Então se virou e a viu de costas pela primeira vez. Daquele ângulo era bondosa como a imaginara na outra consulta. Ao ouvir a voz sem ver o rosto, ela lembrou de modo ainda mais vívido do homem de seu sonho. Ao acordar de manhã se lembrara do jaleco. Era de gabardine com detalhes em gorgorão. As fibras segundo a vendedora tinham íons de prata que eliminavam bactérias e fungos. A médica reparou que podia cortar as mangas ou até tirá-las. O espelho lhe devolveu o sorriso. Depois de tudo, ainda sabe sorrir e como bela é quando sorri. O homem estava hipnotizado pelo branco do tecido. Era o momento clássico em que o tempo fica em suspenso esperando para que lado a conversa irá e para onde levará as vidas. – E como seria esse tratamento? – Medicamentoso. Terapia. – Você quer dizer antidepressivos – acrescentou ele. Ela disse sim e ele respondeu que não ia dar certo. Tomara remédios demais ao longo da vida e o afeto feminino era das poucas coisas que restavam. Ela continuava digitando e olhando o monitor. Tentou tranqüilizá-lo. Hoje em dia existem antidepressivos que não afetam a libido. Ele pensou em dizer que não confiava em médicos mas ela ficaria magoada e ele perguntou se ao dizer terapia ela estava dizendo que iria colocar um psicólogo entre eles. Não disse exatamente isso mas era isso. Ela disse sim e ele concluiu que não ia mesmo dar certo. Ingenuidade pensar que daria e tivesse encontrado a solução para fazer suas traduções num lugar calmo sem se preocupar com as refeições. Dias frios fazem esquecer a doença e a inutilidade como se o homem entrado em anos se sentisse preservado. Sim estava na melhor idade. Até ofereciam lugar para ele no metrô. Não sempre. Às vezes. Quando não, era como se dissessem: “O senhor está aposentado; evite a hora do rush ou então aguente o tranco”. Era portanto um velho embora não se sentisse um e estava doente. Não muito doente na verdade nada diferente do esperado para um velho quer se sinta ou não assim. Ainda bem existem os dias frios quando o sentir-se inoportuno é amenizado pela luz do sol que quase não aquece mas tanto ilumina em meio a casas encantadas onde o tempo não se decidiu se vai nos acompanhar ou se podemos continuar sonhando. Porque geralmente não é assim mas uma sucessão de horrores presididos exatamente pelo tempo. Exceto quando uma mulher senta ao lado na praça e o olha como aconteceu havia um tempo. É um olhar inconfundível que ensina a um menino de treze anos que já é um homem e a um velho de sessenta que ainda é. QUANDO deu por si havia surgido a cidade seguinte. Escurecia mas o dia não passara. As margens da rodovia convergiam para os resquícios avermelhados do sol. A faixa branca tracejada desapareceu no abismo um pouco antes. O cheiro da mulher em suas mãos e no cheiro da poaia. O rio correndo na mata ao lado desaparece sob o som dos caminhões e retorna depois que passam. Todo dia é o mesmo dia. As casas se erguem ao longe duplicadas no asfalto úmido. Os pontos vermelhos descem e os brancos crescem e sobem. A estrada sob seus pés. A noite parece será fria. Ele não mudava a passada embora se sentisse correr. Há uma pincelada escura nas nuances de azul no horizonte. Evoca sobre o telhado uma forma conhecida. Não se espantará se também chover. Escutava a melodia do violino que ouviram da última vez. Ele havia feito um rabo de cavalo ao segurá-la pelos cabelos com a mão esquerda e mantê-la ajoelhada na cama embora ela não fizesse qualquer menção de escapar. Ficou vendo o alto ruivo da cabeça lembrando como ela minutos antes mudara o local da risca com água borrifada e secador. Trouxe-a para mais perto e depois afastou-a de novo e depois tornou a trazer. ELE ESTAVA conviccto quando prometeu a si mesmo nunca mais mas agora desce novamente a rodovia olhando o crepúsculo atrás da casinha onde foram felizes. Pensando na primeira e em todas as noites quando se aperfeiçoavam um no outro e a magia durava até de manhã. Vagões. De longe e do alto o casario antigo e colorido lembra desenhos de uma criança quieta num canto com lápis de cera. O rio serpenteava pela encosta junto às ruas estreitas. Vagões. Quando um deles o trará de volta? O rosto da mulher desabrochara com as azaleas do vaso de lata à janela e ela arfava observando a nuvem riscar os trilhos. Logo cedo ao acordar ela lembrou do vestido que tinha comprado um dia antes e foi nua até o armario e diante do espelho o experimentou como se tivesse um encontro. O último foi há uma ano com o andarilho. Se é que pode chamá-lo assim. Andarilhos nao gostam de ficar em casa e ele adorava. Passeava perfeitamente à vontade pelas ruas estreitas em que ela cresceu. Durante um ano morou ali. Ele amava a casa. Foi a primeira afinidade. Ela sempre lutou para ter o seu canto e não havia nada no mundo que prezasse mais. Foi sim a primeira afinidade mas logo superada quando ele a pegou daquele jeito que ela adorava. A noite era gelada. Não tinha sido um inverno rigoroso mas volta e meia vinha uma massa polar mais intensa e dava para alguém ao relento morrer de hipotermia. Ele esteve perto disso. Naquele mês pelo menos dez sem-teto tinham morrido. A prefeitura e a igreja estavam em alerta com relação aos moradores de rua mas andarilho é outra coisa. Não há estudos de infecções pulmonares relacionadas a essa população. Não há estatísticas. Há pessoas que entram em óbito só de dormir molhado no relento mas outras passam anos no acostamento sob chuva e temperaturas negativas. Talvez ele tenha entrado mas saiu porque ela cuidou dele. E depois agradecido ele cuidou dela ajoelhada segurando seus cabelos num rabo-de-cavalo e depois deitada com as pernas para cima. Se entrou, ele saiu; e, se foi, voltou em boa forma. Nesse momento riram e ela passou a mão direita em sua testa manifestando um carinho que ignoravam existir no amor físico. Acordaram nunca falar sobre suas vidas anteriores quando o sol da manhã entrou no quarto e pousou nos lençóis e então souberam que não havia vidas anteriores. Um nevoeiro denso se formava conforme ele ia descendo e lembrando. Tinha vez que chegava a ficar doente por conta da vontade de voltar. Dia após dia sentindo nos dedos o cheiro da mulher e vendo seu sorriso. As vezes incomodava mais o abandono e a mágoa do que a fome e o frio. Cada cidade fatídica mais que a outra. As raras pessoas na rua não podiam deixar de dar uma olhada. Tão magro e melancólico. Tão distante. Um dia ficou quase o dia todo na estação entre partidas e despedidas enquanto os ônibus encostavam nas plataformas. Sopros pneumaticos e motores ociosos. Vozerio e agitacao depois absoluto silencio. No fim desistiu e não comprou a passagem. Ficou vendo os farois traseiros embaçados se afastando em câmara lenta. A atendente tinha acabado de fechar o guichê e demorou mais que o necessário se arrumando mas ele sequer a viu e ela com a cara amarrada pegou um táxi sozinha. Agora está voltando depois de um ano de separação e outro ano de pura estrada. Caminhou a passos lentos e firmes sob o arvoredo logo após o posto e ainda mais devagar ao passar pelo hospital. Sua sombra azulada o acompanha deslizando na terra. Às vezes foge multiplicada entre as casas cinza e marrom raramente negra. O reflexo nas janelas fechadas são espelhos. Carros espaçados fazem a curva devagar. Escurecia mas podia ser manhã se dependesse da pomba bicando migalhas do pão junto ao morador de rua. Ele explicara a diferença quando se conheceram. Sobretudo andarilhos não pedem. Trocam comida e banho por trabalho. É mais difícil quando começa a chover. Naquele dia não foi. Ela disse que morava ali e perguntou se ele não queria ficar para comer alguma coisa. Ele encosta na parede sob a marquise. O rosto molhado. A pipa pendurada responde à bátega e ao vento e estaria se desfazendo na poça em que ele pisa se o projeto de enterrar os fios de cobre saísse do papel. Ela fechou a janela e a agua escorreu abundante pelo vidro. Confirmara-se o alerta da meteorologia. O risco de chuvas volumosas nos próximos dias corresponde à sua preocupacao com a saúde o homem. Chovia tambem quando ela voltava ao hospital. Ela viu a luz vermelha da cruz quando a chuva apertou brilhando lilás no azul claro da fachada e encharcada começou correr. Ecos de passos e chiado de carros. Trovões. O pulsar do coração interagindo com a auralização da noite. Lá dentro ela ouvia o murmúrio em que a tempestade se tornara quando um médico se aproximou. Abriu uma pasta de prontuário laminada. Disse o nome da mulher e ela o corrigiu e ele repetiu com a pronúncia certa. Disse que o homem precisava ficar num lugar aquecido. Recipientes nas axilas e na virilha. Não foi observada melhora significativa após o sono mas pode-se concluir por um quadro estável nos próximos dias. Ela escutava com reverência a voz sem modulação. Virou o rosto uma ou duas vezes para a cama revestida de fórmica em que ele estava deitado e a expressão serena em algum momento ameaçou se desfigurar mas ela a manteve e escutou até o fim. Pensou em perguntar sobre sequelas mas não perguntou. Sorriu um sorriso agradecido quando o plantonista se calou e escolhendo as palavras perguntou se podia ficar no quarto com o homem. Ele ouvira a voz profissional ao acordar e sorriu ao ver que ela estava ali e balançava a cabeça suavemente enquanto era informada de que o estado dele era estável. Ele lembrou disso ao ver o girassol no jardim da última casa à esquerda. Ereto pela manhã parecerá prestar atenção a tudo o que a luz tem a dizer. Ela própria tinha sempre essa delicadeza e essa era uma razão importante para que ele a admirasse tanto. Como se esforçava para encontrar o jeito certo de fazer as coisas. Como ele não precisava dizer nada e como ela estava sempre presente e disponível. O médico falava e ela sorriu ao perceber que o homem havia acordado. Deu uma piscadinha quando perguntou se podia ficar. Ele sorriu de novo ao ler os lábios da mulher mas o sorriso foi morrendo quando entendeu que a resposta do médico embora gentil havia sido negativa. Leu novamente os lábios que por um momento pensou pudesse beijar em seguida. Então ela voltaria no dia seguinte. Por que não voltou? As noites ficaram muito difíceis depois que um dia ele estava sentado num banco de madeira do centro cultural e viu a menina. Ela girava com um negro forte metido em roupas extravagantes e coloridas. A princípio ele não discerniu qual das músicas no ambiente eles dançavam porque eram várias vindas de diversos aparelhos de som espalhados pelo hall de entrada. Desde que chegara àquela cidade ele passava algum tempo ali. Ou lendo jornais na biblioteca ou numa das mesas do café ou num desses bancos aproveitando o wifi ou simplesmente pensando na vida e no que ia ser da vida. O movimento dos grupos começara havia oito anos. Duas meninas coreografavam o kpop e chamaram as amigas e as formações foram mudando e de repente do nada apareceram outros grupos para ensaiar todo tipo de dança. Ele achou a menina familiar mas até o último momento não conseguia acreditar. Descendo a ladeira por onde quem chega pela rodovia entra na cidadezinha quando a faixa branca tracejada desaparece, ele parou e sentou no assento do ponto de ônibus. O acrílico rangeu quando ele se encostou. A chuva havia parado exceto por um véu muito fino entre ele e as coisas. Sobrados agora cinzas em torno da praça. Nichos e oratórios. Cadeiras nas calçadas de paralelepípedo. O silêncio de uma noite que parece eterna. Veio porque não ia ter paz se não soubesse o que aconteceu. Por que a mulher não voltou. Preferia acreditar que ela não pudera. Por alguma razao não pudera. De tanto pensar ela se convenceu. Chegou em casa e não desfez a mochila que levaria para passar a noite no hospital. Ligou para a irmã e perguntou se poderia hospedá-la por um tempo. Um tempo. Não sabia quanto. A outra disse que seria um prazer. Poderia ficar quanto quisesse. Mas não será tanto. SENTADA diante do espelho na penteadeira do hotel a menina constata que não é mais uma criança faz tempo. Seus cabelos ainda são dourados como o friso das três gavetas mas não tão lisos quanto há uns anos. A mãe vivia dizendo para ela deixar crescer até a cintura; o padrasto dizia que curto ficava melhor. Seu juveníssimo marido não ficou muito tempo e o atual namorado ela não faz questão que algum dia resolva ficar. Ela foi em pensamento ao lugar onde conheceu o pescador e ficou aí um tempo que bem podia nunca terminar. Olhou para o quadro pelo reflexo. Um Vermeer naturalmente uma cópia e naturalmente real como qualquer imagem. Continuou passando a escova sem prestar atenção. Olhando por cima do ombro para o quadro. Nitida como a projeção de uma camera escura. Prometera a si mesma jamais procurar o pai. Sequer ir a algum lugar em que houvesse remota possibilidade de encontrá-lo. A mãe em seu leito de morte a fez jurar. É papel dos pais cuidar dos filhos e não o contrário. A mãe cumpriu o seu papel. O acrílico gemeu de novo e o homem levantou-se e continuou descendo. A mulher abriu a janela e viu uma estrela com a lua na aberta . Ele não planejou voltar mas quando deu por si estava ali. Escutou um bater de asas que logo se perdeu na distância e lançou um olhar mais abrangente. Além da ferrovia o rio e as montanhas e ainda além o recorte mais claro de outras montanhas. Tudo cinza prateado. Lá no fim da noite um horizonte impreciso. Caminhou um pouco mais. Transeuntes em sentido contrário. A cidade num segundo plano desfocado. Passa em frente ao prédio de um banco. Conhecera havia algum tempo um sem-teto que dormia por ali. Ele falara de fatalidade e desemprego e de decepção amorosa e essas coisas que acontecem na vida da gente e a gente acaba na rua. De uma moça de boa família com quem cruzou naquele mesmo lugar e conversa vai conversa vem estavam apaixonados. Apaixonados. Nunca saberá por que ela o deixou. Desde então decaiu e agora dorme ali. Dormir mesmo não dorme mas tenta relaxar e espera a manhã. O homem olhava a fachada do banco tentando lembrar o nome do outro mas não conseguiu e concluiu que o nome é a primeira coisa que alguém ganha ou perde quando ganha ou perde a vida. Apaixonados. A mulher procura entender onde está ao acordar satisfeita no meio da tarde. Cruzou os braços sobre o peito e então levou as mãos em cruz ao lugar em que ele esteve. Podia sentir a respiração a seu lado tão concretamente como todo o resto. Tinham entrado no quarto duas horas antes. Sua própria história permitiu que se entregasse. Conhecera o mundo desde os treze anos, de carona. A do médico foi a última. Um motorista encostara e a assediou por quase meia hora e, como ela se negasse a entrar no carro, ele acionou o Conselho Tutelar e o futuro marido a conheceu assim vulnerável e fugitiva. Aprendera que homem na estrada só pensa em mulher para uma única coisa ou como no caso talvez duas. Mas o andarilho estava na estrada e pensava diferente e não inventou nenhuma treta. Ela não podia deixá-lo ir. Logo da primeira vez abraçaram-se e beijaram-se como uma formalidade. Logo ela passava perna direita sobre perna esquerda e agarrava-se ao travesseiro como a uma tábua de salvação. Erguia a barriga enrijecida e contraía os dedos de um pé. Uma mochila sobre a mesa por quatro ou cinco horas. Grandes mãos quentes e calosas. Quando ele se ajoelhou ela não tinha como negar nem queria. Ele se apoiou na guarda da cama e ela segurou o seu quadril. Depois de alguns minutos ela deitou de bruços amarrotando o lençol amarelo e lembrando as estradas de sua adolescencia. O RETANGULO prateado da janela destacava no centro o perfil da menina. Entrou com o copo de água na sala de tv do hotel e sentou-se no sofá. Bebe lentamente. Os olhos perdidos. A metade visível de seu rosto prateada. Coloca na mesa de centro com o arranjo de magnolias a chave do carro. Tilintam agora na mão direita sobre o revestimento de suede. Se ela olhasse pela janela. O trem cruzava a região de montanhas e o rio chegará à vila litorânea onde nos finais de semana ela e o pai passavam o dia na praia. Ele ia para a parte funda e estendia os bracos para a menininha e dizia que ela viesse. Ela se jogava atabalhoada na água batendo o braço esquerdo e explodia em braçadas com o rosto imerso todo o tempo. Lembrava as imagens com seus olhos infantis porém as recebia a jovem adulta e nada inocente. Esteve desde sempre dividida entre a raiva e a lágrima e isso nao mudou embora tenha vindo tão logo soube que o pai podia estar na cidade. Mas outras coisas mudaram. O país. A profissão. As certezas. O homem sempre lembrava desses dias na praia sobretudo no principio. Menos ao longo do tempo e da procura de banho e comida. Era diferente em relação à mulher porque memória e subsistência estavam interligadas e as lembranças vivas em sua mão. Ainda assim a memoria dos corpos nao sobrevivia intacta ao sono e à fome. Nos primeiros dias andava sem rumo pelas rodovias. A primeira tempestade nenhum andarilho esquece. Uma cortina grossa impedindo a visão de qualquer vida além dos passos. A preocupacao com os tênis encharcharcados logo se fez alívio porque o dono do posto disse que daria um prato de comida e ele podia dormir na garagem vazia. Agradeceu e comeu com a familia. Era a única hora em que desejava uma família e a hora da lembrança mais intensa da menina. Ela sentada onde está a filha do dono. Mas no lugar onde está a esposa ele hesita. Em geral à mudança do tempo correspondia uma mudança de ânimo. A demasiada permanência do sol ou de dias nublados. Nessa hora era evidente o poder da pele. Temperaturas não são sentidas mas a mudança de temperatura. Na manhã daquela noite estava muito frio. Depois o nevoeiro se dissipou e esquentou um pouco e bastou para que ele se animasse a fazer planos esquecidos. Tinham dado umas bolinhas de queijo e croquetes para a estrada e ele foi se deliciando ao longo de não sabe quantos quilometros ou horas e na hora do almoço portanto era hora de qualquer outra coisa. Recostou num castanheiro. Ficou sonhando com a menina e pensando onde ela estaria e o que estaria fazendo. Querendo reencontrá-la. Uma coisa puxa outra e logo estava nos dias em que a viu pela última vez. Na época cortava cana. Cortou muita cana naquela usina. Trabalho duro. O facão virado contra o proprio corpo. Quem faz isso pode fazer qualquer coisa. Arranjará um bom trabalho e preparará um lar para a menina. Se é que ela já não tem um. Afinal tem idade para ser mãe e ele de ser avô. O pássaro parece uma pomba. Os pombos vêem nuances que o olhar humano não discerne. Está há umas duas horas no galho do arbusto não mais alto que o nível da janela. Olha direto nos olhos da mulher todo esse tempo mal protegido da chuva que vai e vem. Se fosse um pássaro-desenhista primeiro traçaria o braço em que ela apoia o rosto. Depois as azáleas. Desenharia mais um vaso do ladinho com calceolarias e assim não precisaria se afastar para caçar mariposas e seu canto repousaria toda a noite num leito de cigarras. Por último escureceria os cachos do cabelo. A mulher tinha visto a ave comer formigas e depois se empoleirar no meio das hortênsias. Ali ficou como se a vigiasse. Como outra mulher que lesse seus pensamentos. Duas horas ou tres e as duas ali se encarando. O homem descera pelo outro lado e chegou no rio depois de cruzar a linha do trem. Apertou o passo quando passou no ponto da ladeira mais próximo da casa. Se fosse uma noite mais clara sem dúvida a menina poderia da janela do hotel tê-lo visto em meio aos reflexos da água e às sombras projetadas pelo barco na margem e pelas árvores alongadas. A médica colocou cinco gotas do óleo de menta na água da bacia prateada e cobriu a cabeça do homem com um pedaco grosso de tecido bordado com esmero e rendado nas bordas. Ele inalou o vapor por cinco minutos eventualmente grunindo algumas palavras que ela nao entendia mas percebia o significado. Ao massagear os ombros dele sobre a textura atoalhada percebeu o quanto suas maos estavam magras e envelhecidas mas não se entristeceu pensando que afinal tinha vivido. Jogou a água no tanque e colocou a bacia no tapete perto da cadeira e encheu-a de novo com água fervendo. Colocou duas colheres de sopa cheias de sal e disse para ele colocar os pés e logo estaria se sentindo melhor. Isso foi na semana do aniversario deles mas ela nao conseguia lembrar com certeza se foi no próprio dia ou alguns dias antes. A unica certeza que tinha é que se precisasse fazer tudo de novo não conseguiria. Agora começa a achar que poderia sim. Olha o pássaro através do vidro embaçado e sente lentas lágrimas limpando seus olhos. As flores do arbusto pesadas escorrem. Uma das vezes que a menina e o pai se encontraram ela estava com um vestido comprido de algodão pronta para ir à igreja com o primeiro namorado. Não faz ideia de como o homem descobriu o endereço e não acreditava que mesmo sabendo ele tivesse coragem. Nem ele acreditava. Não parecia fazer força para não chorar; ele tampouco. Não se olhavam muito nos olhos mas um pouco se olhavam. Ela levantava as sobrancelhas para enfatizar as razões da mágoa. Balançava a cabeça para um lado e para o outro rapidinho evitando deixar o rosto para frente. Encostou três ou quatro vezes o queixo junto ao peito e ele notou o quanto eram definidos os músculos de seu pescoço. O semblante do homem expressa cansaço. A barba por fazer há uma semana e o cabelo despenteado sabe Deus desde quando. Não cheirava mal e a menina pensou como ele conseguia. Como conseguia tantas outras coisas. A imagem paterna vem de uma tenra infância e tem a ver com a hora em que ele a trocava e lhe dava a mamadeira mas ela não tem certeza se o cheiro é do leite ou do cocô. O namorado pensou o pior quando entrou e passou pela cabeça dela quais os direitos de um cara que sempre teve tudo o que o dinheiro pode comprar e nunca passou fome e não sabe direito o que é frio. Aproximava-se de acordo com a fome do homem a hora do almoço. Também o indicava toda aquela gente no largo. Havia uma névoa brilhante e a sombra do meio-dia no verão oculta sob as pessoas movia-se e se encompridava. Era o que ele constatara desde cerca de uma semana quando passou a comparar dias e estações. Desde que começara a observar o comportamento dos pombos em torno das migalhas e os cães rosnando para quem se aproximava demais de seus mendigos. Quando os dias lavados pela chuva do fim de semana se engalanaram para o período seco que deveria durar pelo menos três semanas. Então a mulher se aproximou e como se o homem não estivesse ali se sentou no mesmo banco . Ela achava que o canto de um pássaro é bom presságio portanto sua lágrima não faz sentido mas nao pode evitar porque não pode evitar a lembrança. A paisagem de súbito iluminada e de súbito a esverdeada indicação de arestas na pequena encosta ao lado da casa. A rodovia traça o prateado contorno da varanda enquanto a porta do carro é aberta manchada pelas luzes da lanterna. Ela descera precedida pelas grossas pernas em sutil equilibro no imenso salto pontiagudo vistas num relance em toda exuberância pelos segundos que ficaram expostas. O motorista que ela ultrapassou um minuto antes se tocou de longe ao vê-la caminhar sob os faróis que indicavam o caminho para a garagem. Porém ela desviou antes e depois de três degraus de escada o hall se acendeu. A porta da frente se abriu e ela entrou e a porta se fechou de novo. Sentou-se na sala. Brilho difuso de um perfil de boneca entristecida. O olhar distante entre as notas de um violino girando em setenta e oito rotações de melancólica ebonite. Ela nunca mais atualizara o diário que mantinha no hospital. Manchada pelos ramos da segunda árvore à direita de quem sai para o largo pelo jardim de inverno ela viu surgir do balanço da perna o esmalte se desfazendo nas unhas cortadas rente. No dedo da mão apoiada na coxa o anel de aniversário que o marido lhe deu. A marca do caderno tem o logo da empresa de que é proprietário. Quando conheceu o novo anestesista ela começou a entender de onde vinha tanta prosperidade da qual agora também usufrui. Devia gastar mais para ganhar mais e não se sentiu nada bem quando soube. Tem saudades do tempo de enfermeira no hospital universitário. Tem saudades inclusive da pressão do trabalho na UTI. Dos segundos que contavam e se perderam no tempo confortavel de esposa e dona. Tem saudade dos cateteres e das bolsas de coleta. E agora ociosidade com um caderno cheio dessa letra redonda e depressiva. No largo. Ela que gostava de ficar quieta em seu canto quando chegava em casa. E agora. Ele mediu o que havia no espaço entre os dois. A saia e blusa brancas bem engomadas. O crachá solene sobre o seio esquerdo. Viu que ela havia se levantado e se afastara um pouco. O celular no calor de seus dedos longos bafejado pelo hálito de canela. Por hábito ele havia apanhado o papel de bala e se levantara para colocar no coletor de lixo. Quando voltavam os olhares se encontraram no espaço exíguo de uma impressão. Não viam as pessoas que passavam em frente à banca de jornais do outro lado da alameda. O caminho estava inesperadamente limpo como se houvesse um homem solitário para cada bala de papel lançada fora. Ela já o tinha visto antes — a blusa de lã fina de um azul gasto e as luvas coloridas sem dedos e até as falhas na costura do bolso lateral do jeans — e agora ele ressuscitava do vazio de uma chamada encerrada. Os ruídos da praça se diluíam na névoa de silêncio entre os dois. — Com licença — disse ela como se tivesse acabado de chegar. Ele assentiu com um apenas perceptível ricto. O pássaro na gaiola sobre a banca emitiu outra nota e depois outra mais alta e então calou-se como se tivesse alcançado um nível desejado. — Que frio, não é? — Você não gosta? — Depende — disse ela. Ele retribuiu o sorriso. Se é que foi um sorriso. Levantaram juntos e caminharam uns três ou quatro quarteirões ao deixarem o largo. Viraram juntos na esquina e adiante ela seguiu à esquerda e ele pelo lado oposto. Ela foi sozinha até o hotel. Ele entrou em seu quartinho e apanhou o que tinha ido apanhar e saiu de novo. A vez seguinte se encontraram de novo em hotél e cerca de um mês depois numa casa em outra cidade. No outro dia ela acordou cinco e meia como costumava fazer antes de pegar a carona com o médico na estrada e foi se arrumar para a residência. A melhor decisão que tomara. Diziam que não era adequado. Que conhecimento e prática das profissões são diferentes e toda essa conversa. Mas a enfermagem lhe deu uma noção real do funcionamento de hospitais e fez nascer o amor pelos pacientes e experiência para voltar a trabalhar e ser independente. Maquiou-se. Depois de um ano acordando tarde não tem mais fome tão cedo então pegou um pacote de biscoito e uma caixa de achocolatado e pôs na bolsa e desceu para a garagem e subiu na moto. Manteve a embreagem pressionada e foi soltando devagar e partiu com um sorriso escondido no capacete. O vento agora leva as nuvens e a chuva mas o frio aumentou e o homem agachado na margem encolheu os ombros e levantou de novo o capuz. O rio contra as palmas frias de suas mãos. As notas amarrotadas no bolso da blusa são fruto de seu ultimo trabalho na estrada. Foi no último posto antes do pedágio. Disse que estava no trecho e precisava de um banho. Se a proprietária permitiria caso ele lavasse o banheiro. Pareceu um bom acordo para todo mundo e ela ofereceu mais um tanto se ele lavasse os pratos também e desse uma aparada na grama. Alguém que saísse naquela noite e passasse por ele veria um homem maduro saudável bem vestido e asseado procurando como todos algo para fazer na noite antes da sexta-feira santa. Poderiam até imaginar que um navio atracou no porto da cidade vizinha e os marinheiros resolveram aproveitar a folga safos no chão sem pegar tempo. Mas ele só pensa num lugar para ir e sabe que nao vai. Está com dor de estômago e na coluna. Enxaqueca e muita tosse. Mas os episodios de apneia gracas a Deus passaram. A menina acordou bocejando mais do que o usual e lenta se descobriu do edredon e viu quando os pés tocaram o chão a mancha vermelha com o canto do olho. Cobriu de novo o lençol mas não havia ali ninguém para ver. Correu para o banheiro com o coração aos pulos. Era uma coisa assim meio dramática. Como vou falar para a mãe? Mocinha. Mãe, como se põe isso? Sempre a mãe. Sempre presente. Nesse mesmo dia compreendeu por que na noite anterior tinha se medido na parede. Um metro e sessenta. E estava crescendo. Eufórica. Convicta. Sobretudo porque não há a exigência de experiência anterior na aviação. Só tem uma coisa que deseja mais do que viajar: ter uma renda. Juntar as duas vai ser chave. No dia em que terminar o ensino médio irá para a capital ver o que mais é preciso para fazer o curso. A mãe ouvia sorrindo toda aquela empolgação. Vai ser a mais linda aeromoça do planeta. Ah como ela ama a mãe. Abracaram-se e ficaram assim até o telefone tocar. O homem veio do interior para estudar Jornalismo mas logo a necessidade fez com que mudasse para Análise de Sistemas e bem a seguir um curso técnico voltado ao desenho de móveis. Antes de terminar os estudos já estava casado e foram passar a lua de mel na Europa e cumprindo uma promessa levou a esposa à Praça de São Pedro mas naquela manhã o Papa pela primeira vez não fez a oração do domingo e estava estabelecida a primeira de muitas frustrações do casal. Não muito tempo depois o relacionamento tinha acabado mas nem um nem outro admitia. Havia a esperança de que a gráfica que ele tinha aberto viesse a mudar as coisas sobretudo se a esposa engravidasse de novo. A evolução material veio mas não se fez acompanhar de felicidade e logo seus corpos refletiam isso e ela outrora magra tornou-se fornida e cadeiruda e ele ganhou a barriguinha típica dos prósperos infelizes e nos dois casos os fazia tanto mais atraentes para terceiros quanto se entediavam um ao outro. Nessa época começou a traduzir os blues das lendas do velho gospel de rua. Blind Willie e Gary Davis. Pearly e Rosetta. Quando recebeu a indenizacao da empresa de tecnologia e decidiu viajar, esse aprendizado foi essencial; e mais tarde, ao passar de mochileiro pelo mundo a andarilho no Brasil, seus olhos brilharam pela ultima vez graças ao domínio de outro idioma. Houve uma greve de caminhoneiros. Os dias se passavam e os produtos faltavam nas prateleiras dos mercados e as ambulâncias não iam apanhar os doentes e as pessoas começavam a ter dificuldade para simplesmente sair de casa. A primeira imagem que veio à mente da menina enquanto passava pela feira-livre vazia ao sair da estrada e entrar na cidadinha que nao conhecia foi ela piquititinha de tudo caminhando com o pai deslumbrada diante das cores de barracas de frutas e verduras. Hoje apenas umas poucas batatas. O quilo três vezes mais caro. O feirante de branco contrasta com as frutas. Naquela arquitetura de memoria nao havia lugar para a lembrança do pai. A lembrança dele não era um abrigo. Antes um lugar incômodo a ser evitado. Palavras para o silêncio e complexas filosofias de justificação. Quem sabe até a raiz do ateísmo. Na esquina ela abriu a porta do carro e vomitou no muro do hotel em que acabará se hospedando naquela noite. Na verdade o e a pai e a mãe não estavam estavam ainda separados mas havia um acordo tácito de dar um tempo. Ele vendeu a grafica e deixou o dinheiro para ela administrar as economia da filha. Pensou em ir para uma missão no exterior mas não deu certo. Foi trabalhar numa casa de recuperacao na capital. O importante era servir os necessitados. A menina tinha feito quatro anos dois meses antes. Nascera morena e tinha se tornado uma linda garotinha loura como todas da regiao. O homem falou com o sogro. O velho impassivel resmungou umas palavras em alemão e concordou e disse que não se preocupasse. Saiu de manhazinha em plena neblina. Mulheres cantavam como freiras junto aos varais. Ventava. Estava gelado por dentro. O casal amanhecera chorando e ele dormiu no sofá. Fez um café e tomou antes de sair para o vale lá embaixo. Pegou o trem às sete. Se Jesus estava com ele tudo terminaria bem mas nao tinha certeza. A umidade condensada o envolvia como um manto. Caminhava pelo vale da estacao quando aconteceu. Ficou sem ar e não lhe ocorreu palavra alguma para ao nomear o súbito insuportável sofrimento retirar o poder com que o sufocava. Não ia morrer e isso era o trágico. Uma vida inteira para viver sem a expectativa festiva do casamento e da paternidade. Duvida até do nevoeiro. Quando alguém sonha não sabe que está sonhando. Quando alguém morre quem sabe o que saberá. Se terá pensamentos de homem ou de animal. Caminhava devagar para perder o horario do trem mas a cegueira de água e fumaça impôs sua própria lógica e quando deu por si estava sentado na última poltrona do último vagão e escutou o apito. Recostou entre o vidro e a borracha da janela. As paredes de rocha velozes e o som de água não lhe dizem coisa alguma. Esquecera quem era e esquecera o que era. Mas lembrou-se de que teve uma irmã pouco mais nova do que ele. Com menos de um ano a bebezinha saudável morreu dormindo. Cerca de três horas da manhã por fim o homem adormeceu. O sono venceu a fome. Acordou manhã alta sobressaltado. Não tem como esquecer que é setembro porque é seu aniversário. Não tem como esquecer o tempo em que estava separado da mãe de sua filha e nao tem como esquecer que ela morreu porque a menina mesmo em Nova Iorque entrou em seu perfil exclusivamente para contar e amaldiçoá-lo. Todos os seus esforços para conseguir trabalho acabavam vencidos ora porque precisava fazer uma ligação e não tinha créditos; ora porque a pessoa que ia encomendar o serviço desistia; ora simplesmente porque passava o dia de um órgão a outro de assistência social até enfim conseguir uma refeição. Tomou dois copos de água para aguentar mais tempo sem comer. Encontrou no centro um antigo empregado, filho de noruegueses, que pediu a conta e foi para a terra dos pais e mais tarde voltou para morar na roça. O outro o convidou e foram no onibus do meio-dia. Passou a manhã toda no sitio do amigo. As galinhas ciscavam em seu ritmo à direita e à esquerda e as ovelhas gravidas baliam na baia separada no celeiro. Uma mulher saudável escovava o cavalo negro de pelo brilhante. Sorridentes crianças riem que o pai está perto. O homem perguntou há quanto tempo o amigo tinha voltado. Nesten ett år siden. O apito duplo curto e depois distante. Não devia ter se casado. Um outro apito extinto no tempo ressurge contínuo das esferas e depois se vale dos sinos de uma passagem de nível para retornar à realidade. Tinha de ter terminado a universidade. Respirava fundo. Pelos olhos castanhos passam as lembranças nas cores quentes das montanhas. O verde amarelado e além o céu com tons de alizarina. Do dia em que pai e mãe da menina se conheceram até o casamento foi não mais que uma semana. Ele precisou de um documento de emancipação. A menina nasceu um ano depois. O último contato sexual antes do nascimento feito numa desconfortável conchinha. O braço dormente formigando. A vez seguinte não lembra mais quando foi. Agora acabou. É um homem ainda jovem sem rumo pelo mundo. Crescendo em sua mente a trilha sonora da paisagem veloz de brancas nuvens todavia imóveis exceto por imperceptíveis nuances no assento iluminado e aquecido. A guarnição cinza azulada quase tão comestível quanto a maçã do adesivo da mochila onde seu braço descansava.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

sobra da conversa em madrid

2022 2a