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As horas passavam e ele perdera a noção de tempo.  Conforme mudava o lugar de onde olhava as pessoas e os prédios,  a angústia assumia uma forma diferente; as  mudanças da luz emprestavam um novo rosto para o horror. A cor das roupas das mulheres, que substituía o peso dos casacos da outra vez,    também passava impressão mórbida de tristeza.    Subiu umas escadinhas na Republique e, ao ver a praça de um outro patamar teve um instante de alívio. As pessoas caminham serenamente pelo mundo enquanto as nuvens se abrem sobre o asfalto molhado de uma chuva que ele não chegou a perceber. Aproximou-se da aglomeração de pessoas. Ouviu primeiro o som de um violão e depois a voz que cantava; a mesma voz que a seguir passou a falar para as pessoas em torno. “Deus não habita em templos feitos por mãos humanas, porque nós somos os templos vivos de Deus, se estivermos em Deus, pela fé em Jesus Cristo. Nós mesmos somos a igreja do Deus vivo.  Ele está hoje chamando a  todos”. Um jovem se aproxima...

lisboa 25 de agosto de 1988 ou A mulher oculta nas viagens de andrei morgado (revisao inversa) "Debruçado à mesa da cela",

  Debruçado à mesa da cela, a cabeça oculta entre os braços, envolto por sonhos insepultos travestidos de memória, evocou sem sucesso a imagem de uma mulher. Era uma mesa pequena, feita com  madeira de demolição marrom, assim como a cadeira em que estava sentado. A biblia com capa de couro vermelho ja estava ali quando chegou. Está aberta no saltério. Em frente à janela, na pequena encosta gramada, ao lado de um calvário medieval, uma placa de pedra indica a vereda de terra que dá nas vinhas.    Agora voltou o silêncio vespertino da abadia. O passo do homem, lento, ecoa; envolve os pensamentos moldados à arquitetura dos predios.  São lembranças cristalizadas a cada revisita; tantas vezes revisitadas,  se incorporaram a memória como fatos, embora nem todas o fossem.       Desce agora um pequeno lance de escadas; a lembrança à  sua frente ilumina os vitrais. Na margem do Tejo, o vendedor de haxixe abordava os estrangeiros. Acinzen...

sobra da conversa em madrid

                Luis, o entroncado moreno do Porto, falava sobre mulheres. Dizia: "Sexo e sentimento são para elas a mesma coisa. Quando sentem prazer, estão amando. O homem não associa assim. Admitimos que a imagem da amada possa se apagar e o coração transmitir outras imagens". “Por isso são tão possessivas” — disse tomas "Exatamente como em uma possessão". Tomas ia      Sentiu que o outro era alguem de quem não se pode impunemente discordar ou acrescentar Conhecia muita gente assim. Apaixonam-se pela sua própria visão de mundo com violento ciúme. Portanto, ia dizer que o sentimento de posse da mulher apaixonada é fruto da ingênua pretensao de ter o controle da vida, mas se calou. Então Luís concluiu ele próprio: Michel pensou em uma mulher específica, com quem estivera na noite anterior, concordando em que, embora a amasse, seu viés possessivo a tornava desagradável muitas vezes; mas...
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2022 2a

Naquele dia ao passar pelos jardins da taconera indo de seu pequeno comercio de flores no ensanche para uma reuniao no coracao do casco viejo, Thomas lançou um olhar inquiridor ao lago cono se perguntasse aos patos como deveria reagir em casa quando da chegada das visitas. É uma boa cidade para se viver. Limpa, bem cuidada, e a associação comercial de seu bairro tinha uma atuação efetiva. Com Isabelle tornou-se perfeita. Temia o casal. Michel não era confiável e Oleana uma mulher perigosa. Fazia-o retroceder a um tempo superado em sua vida, o tempo das conquistas amorosas. Sim, uma cidade agradável. Quando crianca, no verão, vinha com os paus de Barcelona e antes mesmo de irem para o hotel pedia para ir catar pedrinhas na beira do rio, junto às arvores.  Suas memorias moravam nesse tipo de evocacao, ao menos antes d despertar dos demônios da puberdade. Resgatou com Isabelle a infância. Não permitirá que quem quer que seja estrague isso. 
No dia em que foi para o balcão do restaurante, depois do médico da empresa proibir que ele voltasse à mina, Francisco Parrilla Váler viu entrar no recinto um casal turistas acompanhado de um rapaz que parecia ser uma espécie de guia, embora também estrangeiro. Estava ainda com muito sono. Não dormiu. Há muito tempo não dorme direito, pensando na doença, na verdade o destino de qualquer mineiro. Como fará para sustentar a mulher e o filho? O movimento do restaurante é mínimo, não mais que um ou outro turista perdido, como esses. Como se isso não bastasse, sabe que os resíduos da fábrica de um modo ou de outro terminam mais cedo ou mais tarde por afetar a saúde de todos os moradores da região, sejam ou não mineiros. Se bem que a mulher trabalha nas piscinas do Ayuntamiento e está bem de saúde, graças a Deus. Mas sim, desde o início da década de oitenta sabe-se que a lama está perigosamente perto das casas e das escolas. Num primeiro momento, inclusive, pensou que os inesperados clie...
Sentia-se como num sonho que ainda não sonhara; num futuro cujas dores e alegrias serão inevitáveis. O lugar cooperava para tal impressão. Quando o rio Garonne encontra o Dordogne em Bec d'Ambès, o estuário criado não se parece com algum lugar da vida real. Não se parece com algum lugar. Haviam chegado ali depois de uma hora de viagem desde Bordeaux. Depois de três dias juntos, Andrei e Julie tinham desenvolvido a capacidade de intuir o pensamento do outro. Era melhor assim do que ficar tentando entender palavras em inglês que no final não sabiam mais com que propósito disseram. Com efeito, olhavam-se agora, dizendo sem palavras o quanto estavam deslumbrados com o lugar.