Ainda antes da luz do dia ouvia-se no refeitório da pensão os tilintares característicos e nesse momento Andrei se aproximava, com cara de sono. Entrava pela porta de correr de vidro, com estrutura de metal, que levava também à lavandeira. Do lado oposto do prédio o mesmo tipo de estrutura dá na área externa e na sacada, onde ele ficava quando se aproximava a hora de ir buscar Francesca, olhando linha vermelhado início da manhã. Tomava o café, que ficava na garrafa térmica em uma grande mesa encostada na parede, com as frutas, o leite e os biscoitos e as frutas. Em três ou quatro cestos de vime, suas formas, cores, cheiro, e imagináveis sabores tinham igualmente a ver com a saudade que sentia. Assim que o sol saía, entrava no ambiente pela grande janela lateral e o calor em seu rosto tinha a ver com a saudade que sentia, porém não era a saudade que sentia, estava muito longe de ser a saudade que sentia. Nesse dia, estava meditando acerca das últimas semanas e essa saudade apertou em seu peito, intensificando-se a cada pensamento ligado à diversidade das frutas e às camadas da luz do sol em seu rosto. Nesse dia, passou pela laje, onde os hóspedes estendiam as roupas em varais de piso. Quando muitos eram colocados em simultâneo, os tons da luz nos tecidos, o som do sutil tremular dos tecidos, a água que pingava e escorria, tudo isso também tinha ligação com a saudade que sentia. Esse insight começava bem antes, quando se colocava na mesma posição em que vira a mãe de Isabelle, curvado em si mesma, com a cabeça nos joelhos e as postas, e o alongamento dos músculos remetia também à saudade que sentia. Era uma sensação boa, mas era muito mais que uma sensação boa; na verdade não era algo que se pudesse chamar de sensação. O primeiros carros e motos descendo a avenida Liberdade no sentido dos Restauradores, o avião, as buzinas, as conversas dos passante, os cachorros, todos esses sons também faziam parte da sua saudade, não exatamente, porque essa saudade compreendia algo muito maior do que os sons. Mais tarde então, quando estava sentado diante da máquina de escrever.
Ouvia a voz de Francesca. Falava com a proprietária. Aquela voz, que antes me enchia de desejo, talvez ainda agora enchesse, porém lacerando o coração. Assim, como minutos antes, com o sol no rosto, ele sorria, agora começou a chorar. Ela entrou, com uma blusa curta sobre a calcinha com que dormira. Pelo jeito não percebeu o pranto. Como era linda! Por instantes parecia possível que ela transmitisse algo em minha saudade, algo fora dela mesma e sem dúvida fora de mim, superior a nós, ao sentidos, à cidade, ao continente, ao mundo. Essa saudade não tinha um corpo, mas passava por todos os corpos à volta, não era simples beleza, mas compreendia toda beleza. Havia de fato uma pacto entre ele e as coisas, até com as pedras tinha essa aliança, e a saudade era também de todos os animais do mesmo modo que de anjos. Ela se aproximou (como era bela, como era bela!) e ele se sentiu melhor, o ar passou a entrar fácil em seus pulmões. Mas não pelas razões conhecidas. Ela não provocava o desejo antigo, angustiado, embora houvesse sim um outro tipo de desejo, que não era o de seu corpo. A saudade que sentia continha o desejo antigo; mas também trazia uma dor infinita, mas a dor infinita não angustiava, pelo contrário, continha fragmentos daquela nova saudade, agora compreendida como única. Toda estética tinha a ver com essa saudade, embora não fosse a saudade em si mesma. Seus olhos. Alguma coisa no seu olhar se deixava captar como verdade, e o que não deixava trazia desconforto e tristeza. Seu sorriso continha esse desconforto. E a beleza de seu corpo logo se mostrou odiosa, indesejável. Ela ficou alguns minutos, fazendo contas, contando como seria o tal negócio planejado. Quando saiu, abri a bíblia que estava ao lado da máquina, e o lugar onde estava aberta, mais do que tudo, tinha a ver com a saudade que eu sentia. Como se as palavras que dali fluiam me habitasse e ao mesmo tempo dentro delas eu me movesse. Ela falou sobre uma ideia que teve sobre montar um ateliê de costura e ter dinheiro para sair do pub, com entusiasmo contagiante, e esse entusiasmo tinha absolutamente tudo a ver com a saudade que ele sentia, ainda que a saudade que sentia fosse infinitamente maior. Não a razão do entusiasmo, nem o sentimento produzido, mas alguma coisa além, da mesma forma que estava além da diversidade das frutas, das cores, das luzes, dos sons, das texturas. A alegria das lembranças de Paris e também a lembrança da dor que sentira em Paris um pouco antes da alegria, também essa memória fazia parte dessa saudade, embora a saudade a compreendesse com sobras. Era uma certeza acerca da verdade. Tudo testificava em seu espírito acercada verdade e a verdade tinha a ver com unidade, como se a verdade não pudesse se dispersar sem deixar de ser verdade.
sobra da conversa em madrid
Luis, o entroncado moreno do Porto, falava sobre mulheres. Dizia: "Sexo e sentimento são para elas a mesma coisa. Quando sentem prazer, estão amando. O homem não associa assim. Admitimos que a imagem da amada possa se apagar e o coração transmitir outras imagens". “Por isso são tão possessivas” — disse tomas "Exatamente como em uma possessão". Tomas ia Sentiu que o outro era alguem de quem não se pode impunemente discordar ou acrescentar Conhecia muita gente assim. Apaixonam-se pela sua própria visão de mundo com violento ciúme. Portanto, ia dizer que o sentimento de posse da mulher apaixonada é fruto da ingênua pretensao de ter o controle da vida, mas se calou. Então Luís concluiu ele próprio: Michel pensou em uma mulher específica, com quem estivera na noite anterior, concordando em que, embora a amasse, seu viés possessivo a tornava desagradável muitas vezes; mas...
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