A NOITE outros fragmentos

Um ano pode nao ser uma medida arbitrária de tempo. Abriga por exemplo as diferentes luzes das estações induzindo a diferentes modos de sentir e pensar. Pense nas chuvas de verão encurtando os dias ao exigir precauções desde o calçado e guarda-chuva às rotas e horários de saída do escritório ou a espera do ciclo de relâmpagos caso você tenha um cachorro apavorado com trovões. Ou, abandonando tais superfluidades, se voce está na outra extremidade do mundo e o sol desaparece e o elkhound está adoentado e você corre sozinho na escuridao gelada para nao morrer, não haverá o tempo reservado à queixa e o tempo será portanto alargado. Está assim ampliada a idéia e introduzidas no tempo latitudes e longitudes e diferentes animais e outros tipos de cor e a mais extrema, a que habita a ausencia de luz. Quantas horas tem os dias em que o sol não se poe? onde está a hora que foi perdida na mudança para o horário de verão ou de fuso? A aeromoça, quando está no norte da Noruega, anda na maior parte do tempo nua com as mãos presas e os olhos vendados mas as roupas estão sempre muito limpas e bem dobradas e seu pelmeni tem mais carne. O amante adora o tempero. Afasta lobos. Certa noite porem ela não demonstrou ânimo para brincadeiras e também na noite seguinte e no outro dia amanheceu gripada. Se no final da semana aparecerem erupções em sua pele muito branca e depois ela, que nunca reclama, começar a queixar-se de lombalgia e dor nos dedos e nevralgia no rosto e for diagnosticada a borreliose, estará fraca demais, será muito tarde, e o lapao, com o coração partido, morrerá também uma semana depois. A aeromoça ia um pouco à frente do pescador pensando se daria tempo de passar no hotel e se vestir e chegar no aeroporto de Tromsø duas horas antes do vôo e estar no avião uma hora antes da decolagem toda linda paradinha para os passageiros como se fosse uma aparição. Segurava as sandálias na mão esquerda e apertava os olhos por causa do vento. Areia fina e gelada. O mato de um verde pálido perto das luzentes ondulacoes. A lâmina azul prateada. Ela o conhecera num bar ali perto. Alma sofrida num corpo pleno. Seu olhar melancólico perdido no horizonte que recorta os telhados do vilarejo. Se olhasse para baixo veria delicadas pegadas mas o que ve está na penumbra do pub. Rostinho simétrico e naturalmente loiros cabelos lisos nao muito compridos. Olhos azuis e maçãs do rosto rosadas azuladas aos canhões da luz da pista de dança. Um estilo simples de vestir e falar e uma quase timidez. E sobretudo o corpo de curvas apenas sugeridas. Montanhas à esquerda da direção que agora eles tomaram. Um tom abaixo de verde em relação à vegetação da praia. Caso seguissem caminhando e chegassem ao asfalto veriam a luz do sol nos ciprestes que ladeavam a estrada vazia exceto por um barulhento trator de cuja fumaça surgirão as caixas de correio. Uma casa e depois outra e uma e depois outra antena parabólica. Umas após outras ovelhas tranqüilas pelo meio da pista. Caso seguissem naquela direção, veriam. Estava ainda com a maquiagem de Dubai e estava pensando em só retocar o espesso creme para olheiras e hidratar um pouco mais a pele clara com pequeninas espinhas e passar dexapantenol nos lábios. Basicamente isso. Os cabelos umidificados e depois presos com dois grampos e dois elásticos e a redinha em torno do coque. Tudo bem simples e rápido. Vai dar tempo. E antes de apertar o passo contra a brancura salpicada de verde sua silhueta produziu um efeito de pintura que foi ainda úmida coberta de verniz. Ela olhou para ele pensando o quanto era bonito. Em como seria amar um rapaz cuja idade regulasse. A fachada do bar já ao longe é branca. Os ombrelones brancos das mesas redondas em alumínio e bagum balançam ao vento. Vinte e cinco mil longos sinuosos quilômetros de mar ladeado por penhascos glaciais. O menino caminha de shorts na pedra escura molhada e pisa no lago salgado diante da casa vinho de seu pai. - Det en sjø-ørret, ikke en laks - disse o pescador. Debaixo d´água o esverdeado fundo de pedrinhas multicores e peixes amarelados por um sol como quase sempre oculto além do recorte pétreo das vertentes. - Veldig bra jobba gutter. - disse o avô. Outro menino gira o molinete com a mesma mão direita trêmula à noite pensando na estrangeira e sua mãe na varanda. Era quase meia-noite e tudo ficou laranja. O verão inteiro era assim e nem ela se acostumava com a cor de tudo àquela luz nem ele com as formas daquela cor que as encontrava nos ombros do decote que não se espera por esses lados. Essa mão. Esse céu inteiro laranja. E agora a pedra e o mar em tons de verde: o mar sinuoso dos fiordes. "Puxa o peixe, meu filho. Puxa e me mostra". O menino estende o salmão vermelho-esbranquiçado como jóia numa bandeja e ri seu riso tímido. A superfície móvel cintilante azul-escura quase negra respira também como os seios e arfa como a filha e Soren entende e talvez aceite agora aceite que a menina pode ser uma coisa boa. Sem falar que a mãe é uma bela mulher. Salvadora de animais. A menina entrou e perguntou para a irmã do pescador se ele estava. A irma pede por favor para ela entrar. Sentam-se no sofá. A metade visível dos rostos alaranjada. "Sou um ano mais nova", disse a irmã. "Sou de Libra". "Sou de Câncer", disse a menina. “Seu irmão é muito simpático e parece muito generoso." Sim. Se todos fossem iguais... O sol lá fora parece será eterno. A luz lateral confirma o tamanho das coisas mas prevalecerá a memória. "Ele está chegando", diz a irmã. Saiu de Svalbard de manhã. É que ele foi aceito la em uma disciplina de seu curso. Uma ilha do Ártico. "Acho que nem eu me acostumaria". Talvez a menina se acostumasse. Se as águas não são mais tão frias para o atum... Mas o pescador não chegará na verdade no dia seguinte. Embarcou no navio de pesquisa que agora subia nas ondas escuras lançado sobre blocos de gelo à superfície. Estalava a cada batida como um machado na madeira; nao por virtude ou vício mas apenas um nível acima do que é humano. Pescar e salvar o planeta; pecar e não mais pecar porque o homem foi salvo. Nesse exato momento ele puxa a corda. Entra e vê nos monitores as criaturas. Corais e anémonas. Vestígios de arrasto. O conhecimento não importa e não importa a suspeita e a volúpia se perdeu nos elementos. Luzes esverdeadas dançam no céu como bandeiras de conveniência. O cargueiro finlandês "Arctic Blow", de propriedade da Alliance Navigation, com bandeira do Chipre e tripulação russa, que zarpara de Kristiansand com destino a Haia, onde deveria chegar em 4 de abril, navegava a uma velocidade entre quinze e vinte nós com um carregamento de três mil toneladas de madeira avaliada em um milhão e meio de dólares. Um marinheiro de blusão de forro térmico preto notou um ponto no mar mexido ao olhar da ponte de comando na direção do convés. Ao atravessar o balanço no corredor dos engenheiros, ele se deteve e contou nos dedos: a viagem estava em seu décimo segundo dia. Um cardume de skrei vindo do mar de Barrents passa rumo às zonas de desova qual uma única criatura, harmônica e acéfala. A água é menos fria por causa das correntes. O marinheiro apertou os olhos e discerniu a embarcacao ao longe. O barco do pescador fez uma curva arrojada batido por ondas apenas enormes onde há dois dias havia vagalhões. A corda com a âncora tem uma bóia na outra ponta. O gajeiro na gávea não tirava os binóculos dos olhos e entenderam que ele falara sozinho como de costume, discute consigo mesmo, que figura. Blocos de gelo raspavam a lateral. Os menos experientes ainda escorregam. Os pés do pescador nas botas sentiam o pulsar da maré sob o casco. Olhou o mar sem alcançar a decisão com que flertara com um sorriso no canto da boca e um erguer das sobrancelhas. As luzes do farol ricocheteiam na superfície escura. Tantas vezes dissera que não voltaria, se estabeleceria em terra, mas sempre voltava, de um jeito ou de outro voltava, nômade como esses peixes. Acima da latitude setenta, durante o solstício de verão, do lado esquerdo de onde o horizonte norte incendiou o campo magnético, sobre o mapa vivo e verde, enquanto ela falava e sorria, deixava à mostra a ponta da língua e uma covinha se formava sob as maçãs em que havia um pequeno problema de espinhas e nao pode usar nada muito oleoso mas descobriu um hidratante também cosmético que a salvou. Passavam as nuvens como lençóis esfarrapados estendidos pela brincalhona arrumadeira de Deus, amiga decerto dos pastores de rena amigos de seus sogros com os quais ela desejava dessa vez comer escondidinho de purê de batata e mirtilo junto ao fogo. No dia seguinte tinha chegado. Estava na praia. Ficou horas contemplando o pescador não muito longe das mulheres no raso lidando com os covos e coletando sargaços. A força dos braços segurando o timbale. A serenidade diante das jubartes. Nem as baleias nem os pescadores se impressionaram e sumiram da vista uns dos outros. Ela ficou horas naquele dia e voltou no seguinte. Ficou fascinada quando ouviu das mulheres sobre a casa assombrada. Entendeu melhor quando conheceu os assombros da casa. Mas o que está feito está feito e ela ficou ali num canto sentada ouvindo as ondas nos intervalos. A consciência derramava-se como um fogo até sua terceira blusa e o primeiro de seus dois jeans. Entre o arfar do colo e a garganta: se um enfarte naquele momento a fulminasse iria originar-se ali. Quando viu o pescador pela primeira vez tinha terminado o verão e era no finalzinho de setembro e ate fevereiro nao teria sol como se naquele ponto da garganta e da noite existisse uma morada na qual ele passou a habitar. As lâmpadas de LED do hotel em Oslo foi escolhida pelo proprietário dentre as mais de tecnologia mais avançada. Vida útil de mais de dois anos se ligada direto. O gasto proporcionalmente muito inferior ao da concorrência. E sobretudo o matiz de aconchegante de vermelho era uma imitação convincente do próprio sol. Tudo pela fidelização dos hóspedes. Mas a obstinação do cirurgião com o objetivo de encontrar a área áspera dentro do corpo da enfermeira o cegava para a necessidade da variação dos novimentos e da pressão. Era um começo sem futuro apesar dos gemidos da mulher e de seu suor cremoso e do sorriso dúbio. Dedos nada cirúrgicos. Reservados para os procedimentos na mesa de operação. Delicados demais. Contornavam sem afetar a letargia que recusava igual a dor e o prazer. Mas um homem digno. Por ele, teriam casado. Ofereceu-se para contar ao doutor o marido. Joachim, stop talking. Ele apertava nas mãos pequenas bem abertas a massa dos grandes peitos com desnecessário esmero e até dos sons do colchão parecia cuidar para não ultrapassarem o bom-tom. Assim, ainda que houvesse o gozo, ela permaneceria sem discernir o que era sofrimento ou culpa ou o que simplesmente não era nada. Quando se despediram ele prometeu aparecer um dia no Brasil. Num primeiro momento ela achou bom. Vestido, fora o cheiro de eter que afinal ela tambem deve exalar, ele é mesmo muito envolvente. Mas depois, quando ela estava com o andarilho, ele repetiu isso e a promessa soou agora como ameaça. De pé na popa quando o barco virava a última curva do fiorde antes da vila, elas viram a casinha vinho entardecendo em tons de setembro e terminando no branco do horizonte anterior à linha dos montes com os quais se confundia. Aproximando-se da luz amarela que indicava a porta em contraste com a noite, as duas mulheres olharam uma para a outra com indisfarçável orgulho. O pescador pediu para por favor entrarem. A casa estava abandonada desde a morte do seu avô e fizera parte da política habitacional de Gerhardsen. Era uma casa de madeira revestida de pinho, assimétrica, e havia cascas de bétula pelo chão As mulheres entraram e se sentiram acolhidas embora haja ali mais freezers que mobilia e o anfitrião não seja de sorrir. As janelas dão para o sul. Privacidade ali não seria um problema, pensa a mais moça, tentando se lembrar qual foi o último ser humano que viu antes do pescador. O ambiente é escuro e as tábuas de madeira da parede lateral irregulares. O flue da chaminé é feito com duas tubulações metálicas interligadas. Myndighetene er fornøyd med søket — disse a mais jovem. Haviam aceitado o metodo de gestão e ele seria o capitão de um dos barcos. En brigade for å bekjempe ulovlig fiske — disse a mais velha, de nome Hygge, acariciando o pulôver gasto que vestia, enquanto a outra via um homenzarrão de cerca de quarenta anos nem magro nem gordo à vontade como se fizesse parte da casa e em seguida viu a mão enorme estendida com um sorriso enigmático. Olhava para seu medo que tanto cresceu desde que ouvira falar do pescador pela primeira vez havia um ano quando ele ainda morava em Trondheim e ela acabara de se desligar da empresa aérea brasileira. Agora ela vive em Dubai mas pensa em morar na Noruega ou pelo menos ter ali um lar alternativo. Ele olha para ela com expressão indecifrável. - Jobben går ut på å finne en bolig - ela arrisca dizer. O pescador ouve falar do Centro de Pesquisa e dos fiordes de Svalbard desde menino e sempre sonhou em ir para lá e a vontade se tornou obsessão quando soube que o curso de oceanografia da Universidade de Bergen, para onde seus pais se mudaram ao deixar a Laponia, tinha convênio com a Universidade local. Chegou em setembro. Tinha apanhado um vôo para Tromso e outro, de duas horas, até Longyearbyen . Queria a princípio passar as férias da faculdade mas

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