A.NOITE primeiros paragrafos
A NOITE
QUANDO deu por si havia chegado na cidade seguinte. Escurecia mas o dia não passara. As margens da rodovia convergiam para os resquícios avermelhados do sol. A faixa branca tracejada desapareceu no abismo um pouco antes. O cheiro da mulher em suas mãos e no cheiro da poaia. O rio correndo na mata ao lado desaparece sob o som dos caminhões e retorna depois que passam. Todo dia é o mesmo dia. As casas se erguem ao longe duplicadas no asfalto úmido. Os pontos vermelhos descem e os brancos reluzentes crescem e sobem. A estrada sob seus pés. A noite parece será fria. Ele não mudava a passada embora se sentisse correr. Todo dia é o dia do acontecido.
A PRIMEIRA casa do lado esquerdo de quem desce está mais lúgubre que de costume. Há uma pincelada bem mais escura nas nuances de azul no horizonte. Evoca uma forma conhecida. Um animal estendido acima do telhado. Um cavalo numa poça de sangue. Não se espantará se também chover. Escutava a melodia do violino que ouviram da última vez. Ele havia feito um rabo de cavalo ao segurá-la pelos cabelos com a mão esquerda e mantê-la ajoelhada na cama embora ela não fizesse qualquer menção de escapar. Ficou vendo o alto ruivo da cabeça lembrando como ela minutos antes mudara o local da risca com água borrifada e secador. Trouxe-a para mais perto e depois afastou-a de novo e depois tornou a trazer.
ELA ERA uma feiticeira. Só pode. Ele tinha conviccao absoluta quando prometeu a si mesmo nunca mais se envolver e agora estava ali novamente descendo a rodovia e olhando o crepúsculo atrás da casinha onde foram felizes. Pensando na primeira e em todas as noites quando se aperfeiçoaram um no outro e a magia durava até de manhã. Vagões. De longe e do alto ao crepúsculo o casario antigo e colorido lembrava desenhos de uma criança quieta num canto com lápis de cera. Vagões. O rio serpenteia pela encosta junto às ruas estreitas. Vagões. Quando um deles o trará de volta? O rosto da mulher desabrochara com as azaleas do vaso de lata à janela e ela arfava observando a nuvem a riscar os trilhos.
Logo cedo ao acordar ela lembrou do vestido que tinha comprado um dia antes e foi até o armario nua como estava e diante do espelho o experimentou como se tivesse um encontro. O último foi há uma ano com o andarilho. Se é que era mesmo um andarilho. Andarilhos não gostam de entrar nas cidades e nunca têm residencia fixa e ele adorava passear pelas ruas estreitas em que ela cresceu e estava perfeitamente à vontade durante o ano em que morou ali. Ele amava a casa. Foi a primeira afinidade. Ela sempre lutou para ter o seu canto e não havia nada no mundo que prezasse mais. A primeira mas logo superada quando ele a pegou daquele jeito que ela adorava.
A noite era gelada. Não tinha sido um inverno rigoroso mas volta e meia vinha uma massa polar mais intensa e dava para alguém ao relento morrer de hipotermia. Ele esteve perto no começo de agosto como estivera quando se conheceram em agosto dois anos antes. Ela cuidou dele no hospital e depois em casa. O homem cuidou dela primeiro ajoelhada segurando seus cabelos num rabo-de-cavalo e depois deitada com as pernas para cima. Nesse momento riram e ela passou a mão direita em sua testa manifestando um carinho que ignoravam existir no amor físico.
Acordavam nunca falar sobre suas vidas anteriores quando o sol da manhã entrou no quarto e pousou nos lencois e então souberam que não havia vidas anteriores.
Um nevoeiro denso se formava conforme ele ia descendo e lembrando. Tinha vez que chegava a ficar doente por conta da vontade de voltar. Dia após dia sentindo nos dedos o cheiro da mulher e vendo seu sorriso. Mas às vezes incomodava mais o abandono e a mágoa do que a fome e o frio. Cada cidade mais fatídica que a outra. As raras pessoas na rua não podiam deixar de dar uma olhada para ele. Tão magro e melancólico. Tão distante. Um dia ficou quase o dia todo na estação entre partidas e despedidas enquanto os ônibus encostavam nas plataformas. Sopros pneumaticos e motores ociosos. Vozerio e agitacao depois absoluto silencio. No fim desistiu e não comprou a passagem. Ficou vendo os farois traseiros embaçados se afastando em câmara lenta. A atendente tinha acabado de fechar o guichê e demorou mais que o necessário se arrumando mas ele sequer a viu e ela com a cara amarrada pegou um táxi sozinha.
Agora está voltando depois de um ano de separação e um ano de estrada. Caminhou a passos lentos e firmes sob o arvoredo logo após o posto e ainda mais devagar ao passar pelo hospital. Sua sombra o acompanha deslizando na terra. Às vezes foge multiplicada entre as casas. Cinza e marrom raramente negra. As janelas fechadas aumentam o bairro. Carros lentos espaçados fazem a curva devagar. Escurecia mas podia ser manhã se dependesse da pomba bicando migalhas do pao que deram ao morador de rua. Quando saiam do hospital ele explicou a diferença para a mulher. Sobretudo andarilhos não pedem. Trocam comida e banho por trabalho. É mais difícil quando começa a chover. Naquele dia não foi. Ela disse simplesmente que morava ali e perguntou se ele não queria ficar para comer alguma coisa. Ele encosta na parede sob a marquise. O rosto molhado. A pipa pendurada responde à bátega e ao vento. Estaria se desfazendo na poça em que pisa se o projeto de enterrar os fios de cobre saísse do papel.
Ela fecha a janela e a agua escorre abundante pelo vidro. Confirmara-se o alerta da meteorologia. O risco de chuvas volumosas nos próximos dias corresponde à sua preocupacao com o homem. Chovia tambem quando ela voltava ao hospital. Quando a chuva apertou ela viu a luz vermelha da cruz brilhando lilás no azul claro da fachada e encharcada começou correr. Ecos de passos e chiado de carros. Trovões. O pulsar do coração interagindo com a auralização da noite. Lá dentro ela ouvia o murmúrio em que a tempestade se tornara quando o médico se aproximou. Abriu uma pasta de prontuário laminada. Disse o nome da mulher e ela o corrigiu e ele repetiu com a pronúncia certa. Disse que o homem precisava ficar num lugar aquecido e com recipientes nas axilas e na virilha. Ela escutava com reverência a voz sem modulação. Virou o rosto uma ou duas vezes para a cama revestida de fórmica em que ele estava deitado e a expressão serena em algum momento ameaçou se desfigurar mas ela a manteve e escutou até o fim. Sorriu um sorriso agradecido quando o médico se calou e escolhendo as palavras perguntou se podia ficar com ele.
Ele ouvira a sonora voz profissional ao acordar e sorriu ao ver que ela estava ali e balançava a cabeça suavemente enquanto era informada de que o estado dele era estável. Ele lembrou disso ao ver o girassol no jardim da última casa à esquerda. Ereto pela manhã parecerá prestar atenção a tudo o que a luz tem a dizer. Ela própria tinha sempre essa delicadeza e essa era uma razão importante para que ele a admirasse tanto. Como olhava para ele cheia de atenção. Como se esforçava para encontrar o jeito certo de fazer as coisas. Como ele não precisava dizer nada e como ela estava sempre presente e disponível. O médico falava e ela sorriu ao perceber que ele havia acordado. Deu uma piscadinha e perguntou se podia ficar. Ele sorriu de novo ao ler os lábios da mulher mas o sorriso foi morrendo quando entendeu que a resposta do médico embora tremendamente gentil havia sido negativa. Leu novamente os lábios que por um momento pensou que pudesse beijar em seguida. Então ela voltaria no dia seguinte. Por que não voltou?
As noites depois dessa voltaram a ser muito difíceis ainda mais porque um dia ele estava sentado num banco de madeira do centro cultural e viu a menina. Ela girava com um negro forte metido em roupas extravagantes e coloridas. A princípio ele não discerniu qual das músicas no ambiente eles dançavam porque eram várias vindas de diversos aparelhos de som espalhados pelo hall de entrada. Desde que chegara à cidade para trabalhar em uma escola ele passava algum tempo ali ou lendo jornais na biblioteca ou numa das mesas do café ou num desses bancos aproveitando o wifi ou simplesmente pensando na vida e no que ia ser da vida agora que perdera o emprego. Estava ali quando o movimento começou havia oito anos. Duas meninas coreografavam o kpop e chamaram as amigas e as formações foram mudando e de repente do nada apareceram outros grupos para ensaiar todo tipo de dança. Ele achou a menina familiar mas até o último momento não queria acreditar que era ela.
Descendo a ladeira por onde quem chega pela rodovia entra na cidade ele parou e sentou-se no ponto de ônibus. O acrílico rangeu quando ele se encostou. A chuva havia parado exceto por um véu cinza muito fino entre ele e as coisas. Sobrados coloridos em torno da praça. Nichos e oratórios. Cadeiras nas calçadas de paralelepípedo. O silêncio de uma noite que tantas vezes parecia eterna. Veio porque não ia ter paz se não soubesse o que aconteceu naquela noite. Preferia acreditar que ela não pudera. Por alguma razao não pudera. De tanto pensar ela acabou se convencendo. Chegou em casa e nao desfez a mochila que levaria para passar a noite no hospital. Ligou para a irmã e perguntou se poderia hospedá-la por um tempo. Um tempo. Não sabia quanto. A outra tapou a boca enquanto ria e depois disse que seria um prazer. Poderia ficar o tempo que quisesse.
Sentada diante do espelho na penteadeira ela constata que não é mais uma menina. Seus cabelos são dourados como o friso das três gavetas mas não tão lisos quanto há uns anos. A mãe vivia dizendo que ela devia deixar crescer até a cintura; o pai no pouco tempo que esteve em casa dizia que curto ficava melhor. O marido não ficou muito mais tempo e o atual namorado ela não faz questao que algum dia resolva ficar. Olhou para o quadro pelo reflexo. Um Vermeer naturalmente uma cópia e naturalmente real como qualquer imagem. Continuou passando a escova sem prestar atenção. Olhando por cima do ombro para o quadro. Prometera jamais procurar o pai. Sequer ir a algum lugar em que houvesse a mais remota possibilidade de encontrá-lo. A mãe em seu leito de morte a fez jurar. É papel dos pais cuidar dos filhos e a mãe fez isso. O acrílico gemeu de novo e o homem levantou-se e continuou descendo. A mulher abriu a janela e junto à lua na aberta viu uma estrela.
Ele não planejou voltar mas quando deu por si estava ali. Escutou um bater de asas que logo se perdeu na distância e lançou um olhar mais abrangente. Além da ferrovia o rio e as montanhas e ainda além o recorte mais claro de outras montanhas. Tudo cinza prateado. Lá no fim da noite um horizonte impreciso. Caminhou um pouco mais e passou em frente ao prédio de um banco. Não precisou de muito esforço para visualizar o sem-teto que conheceu ali. Falara de fatalidade e desemprego e de decepção amorosa e essas coisas que acontecem na vida da gente e a gente acaba na rua. Falara de uma moça de boa família com quem cruzou naquele mesmo lugar e conversa vai conversa vem estavam apaixonados. Apaixonados. Nunca saberá por que ela o deixou. Desde então decaiu e agora dorme ali. Dormir mesmo não dorme mas tenta relaxar e espera a manha. O homem olhava a fachada do banco tentando lembrar o nome mas não conseguiu e concluiu que o nome é a primeira coisa que alguém ganha ou perde quando ganha ou perde a vida.
Apaixonados. Procurava entender onde estava ao acordar satisfeita no meio da noite e cruzou os braços sobre o peito e então levou as mãos em cruz onde ele esteve. Podia sentir a respiração a seu lado tão concretamente como todo o resto. Tinham entrado no quarto algumas horas antes. Sua própria história a levou e permitiu que se entregasse. Conhecera o mundo desde os treze anos de carona. Aprendera a andar a pé e aprendera que todo homem na estrada só pensa em mulher para uma única coisa. Esse estava na estrada e pensava diferente então ela não podia deixa-lo ir. Abraçaram-se e beijaram-se quase como uma formalidade. Logo ela passava perna direita sobre perna esquerda e agarrava-se ao travesseiro como a uma tábua de salvação. Erguia a barriga enrijecida e contraía os dedos do pé. Uma mochila sobre a mesa por quatro ou cinco horas. Dedos e lábios precisos. Suas grandes mãos quentes e calosas. Quando ele se ajoelhou ela não tinha como negar nem queria. Ele apoiou-se na guarda da cama e ela segurou o seu quadril. Depois de alguns minutos deitou de bruços amarrotando o lençol amarelo.
O retângulo prateado da janela destacava no centro o perfil da menina. Ela segura o porta-retrato em que o pai lhe sorri. Tem semblante de amigo em quem se pode confiar. A filha entra com o copo de água na sala de tv do hotel e senta-se no sofá. Bebe lentamente. Os olhos perdidos. A metade visível de seu rosto prateada. Coloca o copo ao lado do celular e do carregador na mesa de centro com o arranjo de magnolias. As chaves do carro tilintam agora na mao direita sobre o revestimento de suede. Se ela olhasse pela janela. Veria o trem cruzando a região de montanhas e o rio que chegará à vila litoranea onde nos finais de semana ela e o pai passavam o dia na praia. Ele ia para a parte funda e estendia os bracos para a menininha e dizia para ela ir até ele. Ela se jogava atabalhoada na agua batendo o braco esquerdo e explodia água em bracadas com o rosto imerso todo o tempo. Lembrava as imagens com seus olhos infantis porém as recebia a jovem adulta desiludida. Esteve desde sempre dividida entre a raiva e a lagrima e embora tenha vindo isso nao mudou.
O homem sempre tambem lembrava desses dias sobretudo no principio. Com o correr do tempo e a procura de comida a memória perdeu espaco. Era diferente em relação à mulher porque memoria e subsistencia estavam interligadas e as lembranças vivas em sua mao. Ainda assim a memoria dos corpos nao sobrevivia intacta ao sono e a fome era um instinto superior. Nos primeiros dias andava sem rumo pelas rodovias. A primeira tempestade nenhum andarilho esquece. Uma cortina grossa impedindo a visão de qualquer vida além dos passos. A preocupacao com os tênis encharcharcados logo se fez alívio porque o dono do posto disse que daria um prato de comida e ele podia dormir na garagem vazia. Agradeceu e comeu com a familia. Era a única hora em que desejava uma e a lembrança mais intensa da menina. Ela sentada ali onde está a filha do dono. Mas no lugar onde está a esposa ele hesita.
Em geral à mudança do tempo correspondia uma mudança de ânimo. Em geral a demasiada permanencia do sol ou de dias nublados. Nessa hora ficava evidente o poder da pele. Temperaturas não são sentidas mas a mudança de temperatura. Uma vez estava muito quente e esfriou um pouco e bastou para que ele se animasse a fazer planos já esquecidos.
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